20 dezembro 2010

Família

FAMÍLIA
Francisco Azevedo

Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes.
Reunir todos é um problema, principalmente no Natal e no Ano Novo.
Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um.

Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir.
Preferimos o desconforto do estômago vazio. Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio. Mas a vida, (azeitona verde

no palito) sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite.

O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares.
Súbito, feito milagre, a família está servida.

Fulana sai a mais inteligente de todas.
Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade.

Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo.

Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante.

Aquele o que surpreendeu e foi morar longe.

Ela, a mais apaixonada.

A outra, a mais consistente.
E você? É, você mesmo, que me lê os pensamentos e veio aqui me
fazer companhia. Como saiu no álbum de retratos? O mais prático e
objetivo? A mais sentimental? A mais prestativa? O que nunca quis
nada com o trabalho? Seja quem for, não fique aí reclamando do
gênero e do grau comparativo. Reúna essas tantas afinidades e
antipatias que fazem parte da sua vida. Não há pressa. Eu espero.
Já estão aí? Todas? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua,
a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também
estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar.
Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria,
de raiva ou de tristeza.

Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco.
Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase
sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao
paladar tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa.


Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso
ou daquilo e, pronto, é um verdadeiro desastre. Família é prato
extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem
medido.

Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional.
Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a
colher é verdadeira arte. Uma grande amiga minha desandou a receita
de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada.


O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita.
Bobagem. Tudo ilusão. Não existe Família à Oswaldo Aranha;
Família à Rossini, Família à Belle Meuniere; Família ao Molho Pardo,
em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria.
Família é afinidade, é à Moda da Casa. E cada casa gosta
de preparar a família a seu jeito.

Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas.
Há também as que não têm gosto de nada, seriam assim um tipo de
Família Dieta, que você suporta só para manter a linha.
Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente,
quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.


Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai
aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia.
A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui,
que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança.
Principalmente na cabeça de um velho já meio caduco como eu.
O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça,
por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar
e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas.
Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça,
no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo.
Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete.
(Enviado por Patrícia Gama)
http://cadeaminhavida.blogspot.com/

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26 novembro 2010

Êle viveu entre nós

Salão do Sindicato dos Cozinheiros de Paris, início da
década de 40. O presidente indaga quantos trabalhadores
tem um mes de férias por ano. Uns tantos se levantam. Quem
tem apenas uma semana de descanso. Uns poucos ficam de pé.
Quem só obtém licença do patrão para descansar apenas no
fim de semana. Outro punhado de pé. Quem nunca descansa?
Um rapaz suíço, com pouco mais de um metro e meio de
altura, levanta-se ao fundo. Era Alfredo Kunz, um
militante cristão.
Meses depois, Alfredinho, como era conhecido, foi
mobilizado pelo Exército francês para lutar contra o
avanço das tropas de Hitler. Aprisionado, passou a guerra
num campo de concentração na Áustria, ao lado de
prisioneiros soviéticos. Aprendeu russo para pregar o
Evangelho a seus companheiros de infortúnio. Em 1945,
logrou fugir do campo, onde morreram cerca de 40 mil
pessoas. Estranhou a indiferença dos soldados nazistas
que cruzavam com ele, um notório evadido, com uniforme
azul e cabeça raspada. Naquele dia, a guerra terminara.
Alfredinho tomou três decisões: tornar-se padre, trabalhar
com os mais pobres entre os pobres e jamais vestir outra
roupa que não reproduzisse o modelo do uniforme do campo,
em memória de seus companheiros mortos.
Ingressou na congregação dos Filhos da
Caridade e, a convite de dom Antônio Fragoso, em 1968 veio
para a Diocese de Crateús (CE). Perguntou ao bispo qual
era a paróquia mais miserável da diocese. Dom Fragoso apontou
Tauá, região de seca e flagelo. Alfredinho instalou-se na capela
local. Desprovida de casa paroquial, ele dormia no colchão
estendido junto ao altar e cozinhava num fogareiro.
Certa noite, foi chamado para atender uma prostituta que,
cancerosa, agonizava em seu barraco de taipa, na zona
boêmia. Antonieta queria confessar-se. Padre Alfredinho
disse a ela: "Somos nós que devemos pedir perdão a você.
Perdão pelos pecados de uma sociedade que não lhe ofereceu
outra alternativa de vida. Como Jesus prometeu, Antonieta,
você nos precederá no Reino de Deus. Interceda por nós."
Após receber a absolvição e a unção dos
enfermos, a mulher faleceu. Não havia dinheiro para o caixão. As
prostitutas enrolaram a companheira num lençol e
arrancaram a porta de madeira do barraco para levar o corpo a
vala comum do cemitério. Ao retornar para colocar a porta no
lugar, Alfredinho teve uma inspiração. Durante anos, o
vigário de Tauá habitou aquele casebre em plena zona
boêmia da cidade.
Num tempo de seca, os flagelados invadiam as cidades do
Ceará. Temerosos, muitos fechavam as portas. Alfredinho
criou a campanha da Porta Aberta ao Faminto (PAF), cartaz
que cerca de 2 mil fami1ias ostentaram em suas casas,
acolhendo as vítimas do descaso do poder público.
Fomos amigos e bebi de sua espiritualidade. Barbado,
vestido com a roupa azul que lembrava um macacão,
sandálias nos pés e mochila nas costas, o aspecto de
Alfredinho não diferia do de um mendigo. Convidado a
pregar no retiro dos franciscanos, em Campina Grande,
chegou de madrugada e dormiu na escada da igreja do convento. Ao
acordar, catou as moedas que encontrou em volta e bateu a porta.
"Quero falar com o superior", disse ao porteiro. "O
superior não pode atender. Está em retiro." Alfredinho
tentou esclarecer: "Sim, eu sei, pois vim pregar no retiro."
O porteiro já ia expulsá-lo quando Alfredinho foi reconhecido
por um frade que passava.
Testemunhei fato idêntico em Vitória, nos anos 70. A
cozinheira interrompeu meu jantar com dom João Batista da
Motta Albuquerque para comunicar: "Um mendigo insiste em
falar com o senhor." O arcebispo reagiu: "Diga a ele que
espere, minha filha. Vou atende-lo após o jantar." Era o
padre Alfredinho, que viera pregar no retiro do clero
local.
Em 1988, Alfredinho mudou-se para a Favela Lamartine, em
Santo André (SP). Passou a viver entre o povo da rua e a
dedicar-se a confraria que fundou, a Irmandade do Servo
Sofredor (Isso), hoje congregando pessoas consagradas aos
mais pobres em dez Estados do Brasil e vários países. Sua
trajetória espiritual entre os excluídos está narrada em
seus livros, muitos traduzidos no exterior: A sombra do
Nabucodonosor, A Ovelha de Urias, A Burrinha de Balaão, A Espada
de Gedeão e O Cobrador.
No domingo, 13 de agosto, Alfredinho transvivenciou,
acolhido por Aquele que era o seu caso de Amor. Deixou
como herança o testemunho de que uma Igreja afastada do
pobre é uma Igreja de costas para Jesus.

Frei Betto

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Ouvindo vozes estranhas

"Todavia, de modo algum seguirão a um estranho; ao contrário, fugirão dele,
porque não conhecem a voz de estranhos"

*Leia o Evangelho de João, Capítulo 10*

Talvez Jesus dissesse hoje, para suas atuais ovelhas que infligiram sobre si
uma auto-perdição: Disse eu no passado sobre as ovelhas do tempo que vivi
encarnado entre vós: 'de modo algum seguirão a um estranho'.

Quanto a vocês não posso dizer o mesmo. 'De algum modo vocês seguem a
estranhos, não fogem deles, embora sabendo que as vozes-conselhos são
estranhos, vocês os ouvem, pensando encontrar neles alguma sabedoria, que
vocês sabem, não encontrarão. Vocês gostam de ouvir estranhos!

Vocês gostam de chamar o ladrão de meu pastor!

Gostam do ladrão de emoções!

Gostam, não do que entra pela porta, mas do que sobe pelo muro, visto que se
viciaram em uma adrenalina-mania-de-perigo.

Vocês não amam a paz.

Acolheram o ladrão e suas práticas.

O ladrão, diferente do Bom Pastor, não vai adiante de vocês para os prevenir
e evitar colocá-los em situação perigosa. Ele os coloca adiante dele, para
que vocês sejam os primeiros a sofrerem, e vendo o mau que lhes sucede, ele
escape ileso.

Vocês amam serem laranjas psicológicos dos vossos pastores-ladrões, para que
eles possam praticar os roubos e serem protegidos por vossas
identidades-alma.

Você não amam a Verdade. Adoram uma mentirinha literária dita no gozo do
rastro de palavras bem arranjadas.

Vocês adoram sermões. Não amam a Palavra.

Amam a liturgia do roubo, praticada diante de vocês.

Vocês não querem ser guiados para fora. Amam um aprisco-igreja pastoreado
por ladrões, pulando por todas as partes, vindo por todos os lados, levando
de vocês a saúde, o dinheiro, a alegria de viver a vida em Cristo, a paz, e
tudo de bom que por Deus tenha sido dado.

Resolveram abraçar a morte e chamá-la de minha amiga.

Vocês não querem enfrentar a vida, tendo adiante de vocês, o Pastor das
ovelhas.

Eles, os ladrões, não os chamam pelo nome, (como o Bom Pastor) pois vocês
são uma massa de manobra, não tendo qualquer individualidade, e os guiam
para fora, para o abismo. E isto quando não os guiam para dentro do
abismo-igreja.

Vocês não mais reconhecem a voz do Pastor de vossas almas, fizeram do ladrão
o vosso pastor e do assaltante o vosso conselheiro. E isto em muitas
dimensões da vida.

Ouçam somente a voz do Pastor das ovelhas.

De coração o meu desejo é que você seja (ou torne-se) ovelha, mas talvez
Jesus te diga: "As minhas ovelhas ouvem a minha voz, somente".

Anderson Rio Branco
http://caminhojp.blogspot.com/

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Carta ao inquilino

Prezado morador,
Gostaríamos de informar que o contrato de aluguel que acordamos há
bilhões de anos está vencendo. Precisamos renová-lo, porém temos que
acertar alguns pontos fundamentais:
Você precisa pagar a conta de energia. Está muito alta! Como você gasta
tanto?
Antes eu fornecia água em abundância, hoje não disponho mais desta
quantidade. Precisamos renegociar o uso.
Por que alguns na casa comem o suficiente e outros estão morrendo de
fome, se o quintal é tão grande? Se cuidar bem da terra, vai ter
alimento para todos!
Você cortou as árvores que dão sombra, ar e equilíbrio. O sol está muito
quente e o calor aumentou. Você precisa replantá-las!
Todos os bichos e as plantas do imenso jardim devem ser cuidados e
preservados. Procurei alguns animais, e não os encontrei. Sei que quando
aluguei a casa, eles existiam...
Precisam verificar que cores estranhas estão no céu! Não vejo o azul!
Por falar em lixo, que sujeira, hein! Encontrei objetos estranhos pelo
caminho! Isopor, pneus, plásticos...
Não vi os peixes que moram nos rios e lagos. Vocês pescaram todos? Onde
estão?
Bom, é hora de conversarmos. Preciso saber se você ainda quer morar
aqui. Em caso afirmativo, o que você pode fazer para cumprir o contrato?
Gostaria de você sempre comigo, mas tudo tem um limite. Você pode mudar?
Aguardo respostas e atitudes.

Sua casa – a Terra.

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