28 outubro 2010

Uma narrativa e um narrador

Se é para os cristãos redescobrirem sua identidade única e falarem uma linguagem que tenha a capacidade de transformar Babel, devem estar fundamentados naquilo
que
Mortimer Arias chama de "a lembrança subversiva de Jesus". Jesus é o coração da fé cristã e por isso a narrativa de Jesus deve estar no centro da proclamação cristã.
Jesus representou o ponto alto de uma tradição profética, e foi mestre em usar a linguagem de modos inovadores. Ele era mestre em contar histórias, e a igreja deve
observar o exemplo deixado por ele.
Jesus narrava constantemente a história de Israel; ele trazia à memória do povo de Deus a sua história, e ao contar essa história capacitava o povo a participar
ativamente de sua própria história. Ele recontava a história de Israel de modo a demolir as visões de mundo de seus ouvintes e remoldá-las ao redor de si mesmo.
Jesus tinha pouco interesse em expressar verdades eternas, mas contava histórias subversivas que exigiam ação imediata.
Porém, embora usasse uma linguagem que suas audiências tomariam por familiar, Jesus imprimia às palavras um novo sentido. Ele falava do perdão dos pecados, da vinda

do reino de Deus e da volta de Iavé a Sião, mas proclamava que esses eventos estavam ocorrendo de modos inesperados. Ele narrava "histórias estranhamente familiares,

mas com a lição de moral invertida". Sendo assim, ele tomou os símbolos centrais da identidade judaica (a terra, a família, a Lei e o Templo) e submeteu-os a uma

reformulação radical.
Por essa razão, as histórias e parábolas de Jesus só podem ser entendidas à luz do modo como ele vivia. Separada das suas atitudes, a mensagem de Jesus é incompreensível,

aparentando ser um completo contra-senso. Jesus aceitou a afirmação de seus discípulos de que era o messias, mas imediatamente a seguir passou a falar de sofrimento,

revelando um novo modo de se ser o messias. Jesus afirma que o reino de Deus é chegado, mas revela que ele veio para os pobres e marginalizados. São as curas e
os
episódios de mesa comunal que interpretam o que Jesus quer dizer quando fala da chegada radical do reino. São os atos de Jesus que confirmam e sinalizam a realidade

de suas palavras. A existência inteira de Jesus está mesclada a essa proclamação; seu ensino não pode ser separado de suas ações.
Ao contar histórias subversivas e anunciar o perdão dos pecados, Jesus atrai inevitavelmente a ira das autoridades religiosas e estatais contra ele. Elas tem consciência

de que se sua proclamação e modo de vida receberem continuidade, não apenas causarão a reforma do sistema, mas terminarão por invalidar o sistema como um todo.
Jesus
não apenas questiona os que controlam a moralidade, ele desafia as realidades econômico-políticas que jazem por trás da moralidade. Essencialmente, a mensagem de

Jesus abolia tudo que justificava as desigualdades políticas e econômicas. Não é de admirar que ele falasse em parábolas e viajasse com tanta frequência; se tivesse

falado claramente e permanecido dentro de Jerusalém, teria sido eliminado muito antes de formar uma comunidade ao redor de si.
Se deve seguir os passos de Jesus, a igreja deve estar firmemente enraizada nas histórias do evangelho e na narrativa mais ampla das interações de Deus com seu
povo
e com o mundo. A igreja deve proclamar a narrativa de Deus. Se vai chegar a conhecer sua verdadeira identidade, deve lembrar-se de onde veio. Isso quer dizer que

os cristãos que fazem parte de igrejas comprometidas com a Cristandade formal ou com Babel devem aprender a contar a narrativa cristã de um modo que se mostre subversivo

e incômodo, principalmente e em primeiro lugar, para o próprio povo de Deus. Da mesma forma que Jesus investiu contra marcas da identidade judaica como o sábado,

as leis alimentares, a circuncisão e o dízimo, os cristãos dos nossos dias que são seguidores de Jesus devem aprender a atacar os emblemas de identidade que definem

as igrejas ocidentais. Num mundo em que o mercado sequestrou os símbolos do cristianismo, a igreja deve descobrir maneiras de recapturar o poder de suas imagens.
Tony Campolo é exemplo de uma voz que tem tentado realizar isso. Num discurso frequentemente citado, Campolo fala sobre pobreza e em seguida lamenta o fato de que

os cristãos "não façam merda nenhuma para mudar isso". Ele prossegue explicando que o que o deixa realmente chateado é o fato de que a maior parte dos cristãos
fica
mais furiosa por ele ter dito "merda" do que diante de tudo que ele disse sobre pobreza. Campolo subverte aqui um dos emblemas da identidade cristã contemporânea

(a convenção de não dizer palavrões) e conclama as igrejas ocidentais a voltarem a uma compreensão da fé fundamentada no evangelho.
Se tem esperança de engajar-se de modo missional com o mundo, a igreja deve contar a história de Jesus e deve encarnar a história de Jesus. Deve recordar a narrativa
de Jesus de modo a ser mais uma vez capacitada a viver dentro dela.

Daniel Oudshoorn

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08 agosto 2010

Para os Pais

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos seus próprios
filhos. É que as crianças crescem independentes de nós, como árvores
tagarelas e pássaros estabanados. Crescem sem pedir licença à vida.
Crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada
arrogância. Mas não crescem todos os dias de igual maneira. Crescem de
repente.
Um dia sentam-se perto de você no terraço e dizem uma frase com tal
maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela
criatura. Onde é que andou crescendo aquela danadinha que você não
percebeu? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de
aniversário com palhaços e o primeiro uniforme do Maternal?
A criança está crescendo num ritual de obediência orgânica e
desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca,
esperando que ela não apenas cresça, mas apareça! Ali estão muitos
pais ao volante, esperando que eles saiam esfuziantes sobre patins e
cabelos longos,soltos. Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas,
lá estão nossos filhos com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas
da moda nos ombros. Ali estamos, com os cabelos esbranquiçados. Esses
são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos
ventos, das colheitas,das notícias, e da ditadura das horas. E eles
crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos acertos e
erros. Principalmente com os erros que esperamos que não repitam.
Há um período em que os pais vão ficando um pouco órfãos dos próprios
filhos. Não mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas.
Passou o tempo do ballet, do inglês, da natação e do judô.
Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias
vidas. Deveríamos ter ido mais à cama deles ao anoitecer para ouvir sua
alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os
adolescentes cobertores daquele quarto cheio de adesivos, pôsteres,
agendas coloridas e discos ensurdecedores. Não os levamos
suficientemente ao Playcenter, ao Shopping, não lhes demos suficientes
hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas que
gostaríamos de ter comprado. Eles cresceram sem que esgotássemos neles
todo o nosso afeto.
No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos,
bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscina e amiguinhos.
Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos
de chicletes e cantorias sem fim. Depois chegou o tempo em que viajar
com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível
deixar a turma e os primeiros namorados.
Os pais ficaram exilados dos filhos. Tinham a solidão que sempre
desejaram, mas, de repente, morriam de saudades daquelas "pestes". Chega
o momento em que só nos resta ficar de longe torcendo e orando muito
(nessa hora, se a gente tinha desaprendido, reaprende a orar) para que
eles acertem nas escolhas em busca de felicidade.
E que a conquistem do modo mais completo possível.
O jeito é esperar: qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do
carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos
e que não pode morrer conosco. Por isso os avós são tão desmesurados e
distribuem tão incontrolável carinho. Os netos são a última
oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso é necessário fazer
alguma coisa a mais, antes que eles cresçam.
Aprendemos a ser filhos depois que somos pais. Só aprendemos a ser pais
depois que somos avós...

Uma homenagem do "Mel e Gafanhotos" a todos aqueles que têm, ou já
tiveram, o privilégio de cuidar de uma vida.
Feliz dia dos pais !!

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30 julho 2010

Onde estão os crentes?

Onde estão os crentes? Sim! Onde anda essa gente outrora farta em
número proporcional, mesmo que fizessem parte de uma esmagadora minoria?
Onde se esconderam os crentes? Sim! Aquela gente simples, que comia a
Palavra e respirava pela oração?
Onde enterraram os crentes? Sim! Aqueles homens e mulheres que chamavam
depressão de tristeza e angustia de tribulação ou apenas de provação?
Onde mataram os crentes? Sim! Aquela gente que mesmo morta ainda
falava, mas que agora mesmo existindo já está morta?
Ah! Como sinto falta dos crentes! Sim! Daquela gente que temia a Deus,
que amava o próximo, que guardava o coração para não pecar nem na
emoção raivosa, e que se deleitava na alegria sua ou dos irmãos?
Sim! Morro de saudades até da ignorância santa dos crentes!
Ignorantes de muitas coisas, mas crentes nas virtudes do amor e da fé,
e que carregavam a Palavra na mente todos os dias, e que quando erravam
era por não saber melhor!
Sinto saudades dos crentes que criam na Bíblia e que se deleitavam no
estudo da Palavra.
Sinto saudades da reverencia dos crentes para com todos.
Ah! Quanta saudade do tempo em que os crentes eram simples e humildes,
e que tinham apenas Deus como consolo e fortaleza.
Meu coração anseia por encontrar pobres satisfeitos, rejeitados não
amargurados, abandonados que não ficam se sentindo sozinhos, expulsos
que sabem que não perdem nada, escorraçados que aceitam o maltrato como
privilégio.
A iniqüidade vai aumentando e o amor vai esfriando!
Desse modo os crentes vão minguando e deles se vê apenas a sombra
tímida e reclusa.
Onde estão os crentes? Sim! Aqueles mesmos que não esmoreciam ante
nada, que brincavam de rodas à volta das tumbas, e que chamavam até
mesmo o morrer apenas de promoção?
Ah! Meninos e meninas tolos! Filhos da incredulidade! Enteados da
descrença! Escravos da insensatez!
Será que vocês não vêem, não ouvem, ou terá o seu coração perdido as
carnes do sentir?
Crente tinha essência. Sim! Tinha caráter e fibra! Crente era forte,
era firme, era homem ou mulher de verdade!
Crente perseverava, e nada o abatia para sempre!
Crentes? Hoje? Não! São palitos de algodão doce! São pirulitos chupados
pelo capricho do diabo. São mercenários que tentam contratar Deus para
qualquer serviço sujo, que antes os crentes até diziam que "era coisa
do diabo".
Crentes? Comunhão? Não! Hoje a comunhão virou bacanal de perversa
fraternidade!
Crentes? Solidariedade? Ah! Não! O que há é apenas "troca-troca" de
interesses sórdidos!
Crentes? Não! Nem mesmo são mais querentes. Agora, quando são ainda
bons, são apenas carentes!
Os eleitos estão sendo enganados!
Não lêem a Palavra. Não conferem mais coisas espirituais com coisas
espirituais. Não buscam mais a verdade, mas apenas as riquezas deste
mundo!
Sim! Perderam o prazer em Deus! O amor de Cristo neles feneceu!
Devagar os verdadeiros crentes estão sendo levados, arrebatados pelo
tempo e pela morte; e no lugar ficamos nós, essa gente nojenta de tanto
nada, e pegajosa de tanto sebo de engano!
Até os melhores entre nós ainda são fracos e não suportam nada.
Escandalizam-se de tudo, e arranjam pretextos para se matar de
depressão por qualquer coisa:
"Meu marido não me quer..."
"Sou gay e quero morrer..."
"Minha mãe não me amou..."
"Perdi a esperança na igreja..."
"Fui abusada pelo meu irmão..."
"Cresci sem amor..."
"Por que não dei cabo da vida ainda quando estava no ventre materno?..."
Ah! Quanto desculpa para não andar, para não crer, para não se apossar
do verdadeiro amor!
Sim! Meu Deus! Onde estão os crentes? Onde anda aquele povo alegre,
embora não dançante; feliz, embora não gargalhante; sério, embora
sempre andando em gozo?
Sim! Onde andam aqueles que fazem o mundo indigno perante o seu
caminhar de estrangeiros e peregrinos sobre a terra?
O que vejo é um vale de ossos secos!
Ora, diante do que vejo apenas creio que o Senhor sabe, e que por Sua
Palavra esse vale de morte ainda pode encontrar o espírito da vida!
Em Jesus, que sabe onde estão os crentes,
Caio Fábio
(Enviado por Jorge Luiz Silva de Melo)
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O bom travesti

"O Bom Samaritano" ou " O Bom Travesti"
E perguntaram a Jesus: "Quem é o meu próximo?" E ele lhes contou a
seguinte parábola:
Voltava para sua casa, de madrugada, caminhando por uma rua escura, um
garçom que trabalhara até tarde num restaurante. Ia cansado e triste. A
vida de garçom é muito dura, trabalha-se muito e ganha-se pouco. Naquela
mesma rua dois assaltantes estavam de tocaia, à espera de uma vítima.
Vendo o homem assim tão indefeso saltaram sobre ele com armas na mão e
disseram: "Vá passando a carteira". O garçom não resistiu. Deu-lhes a
carteira. Mas o dinheiro era pouco e por isso, por ter tão pouco
dinheiro na carteira, os assaltantes o espancaram brutalmente,
deixando-o desacordado no chão.
Às primeiras horas da manhã passava por aquela mesma rua um padre no seu
carro, a caminho da igreja onde celebraria a missa. Vendo aquele homem
caído, ele se compadeceu, parou o caro, foi até ele e o consolou com
palavras religiosas: "Meu irmão, é assim mesmo. Esse mundo é um vale de
lágrimas. Mas console-se: Jesus Cristo sofreu mais que você." Ditas
estas palavras ele o benzeu com o sinal da cruz e fez-lhe um gesto
sacerdotal de absolvição de pecados: "Ego te absolvo..." Levantou-se
então, voltou para o carro e guiou para a missa, feliz por ter consolado
aquele homem com as palavras da religião.
Passados alguns minutos, passava por aquela mesma rua um pastor
evangélico, a caminho da sua igreja, onde iria dirigir uma reunião de
oração matutina. Vendo o homem caído, que nesse momento se mexia e
gemia, parou o seu carro, desceu, foi até ele e lhe perguntou, baixinho:
"Você já tem Cristo no seu coração? Isso que lhe aconteceu foi enviado
por Deus! Tudo o que acontece é pela vontade de Deus! Você não vai à
igreja. Pois, por meio dessa provação, Deus o está chamando ao
arrependimento. Sem Cristo no coração sua alma irá para o inferno.
Arrependa-se dos seus pecados. Aceite Cristo como seu salvador e seus
problemas serão resolvidos!" O homem gemeu mais uma vez e o pastor
interpretou o seu gemido como a aceitação do Cristo no coração. Disse,
então, "aleluia!" e voltou para o carro feliz por Deus lhe ter permitido
salvar mais uma alma.
Uma hora depois passava por aquela rua um líder espírita que, vendo o
homem caído, aproximou-se dele e lhe disse: "Isso que lhe aconteceu não
aconteceu por acidente. Nada acontece por acidente. A vida humana é
regida pela lei do karma: as dívidas que se contraem numa encarnação têm
de ser pagas na outra. Você está pagando por algo que você fez numa
encarnação passada. Pode ser, mesmo, que você tenha feito a alguém
aquilo que os ladrões lhe fizeram. Mas agora sua dívida está paga. Seja,
portanto, agradecido aos ladrões: eles lhe fizeram um bem. Seu espírito
está agora livre dessa dívida e você poderá continuar a evoluir."
Colocou suas mãos na cabeça do ferido, deu-lhe um passe, levantou-se,
voltou para o carro, maravilhado da justiça da lei do karma.
O sol já ia alto quanto por ali passou um travesti, cabelo louro,
brincos nas orelhas, pulseiras nos braços, boca pintada de batom. Vendo
o homem caído, parou sua motocicleta, foi até ele e sem dizer uma única
palavra tomou-o nos seus braços, colocou-o na motocicleta e o levou para
o pronto socorro de um hospital, entregando-o aos cuidados médicos. E
enquanto os médicos e enfermeiras estavam distraídos, tirou do seu
próprio bolso todo o dinheiro que tinha e o colocou no bolso do homem
ferido.
Terminada a estória, Jesus se voltou para seus ouvintes. Eles o olhavam
com ódio. Jesus os olhou com amor e lhes perguntou: "Quem foi o próximo
do homem ferido?"
Rubem Alves
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